Capítulo 4: Uma Emoção Despertada Após o Primeiro Estrondo dos Trovões da Primavera
O som da água no banheiro era um sussurro constante e delicado. O vidro embaçado, envolto em névoa, distorcia a silhueta longilínea do homem; a corrente líquida escorria pelas linhas do corpo, delineando músculos definidos, abdômen vincado, exalando uma sensualidade bruta e indomada.
O ruído cessou.
Zhou Yiliu saiu do banho, envergando um roupão frouxo, uma toalha branca repousando displicente sobre a cabeça. O celular, largado à cabeceira, soou um “ding-dong”.
“‘S’ transferiu-lhe 10.000 yuan.”
Zhou Yiliu enxugava os cabelos molhados com uma das mãos; arqueou levemente as sobrancelhas e, sem pressa, digitou uma linha na janela de conversa:
“Você está comprando café ou uma pessoa?”
Porém, não enviou. Franziu o cenho, analisou por dois segundos e decidiu não dar tal satisfação a Shen Jixing.
O olhar daquele homem, ultimamente, carregava intenções nada claras.
Apagou a mensagem e enviou apenas um ponto de interrogação.
【Z】: ?
【S】: Aluguel. Precisarei ficar em sua casa por um tempo, sem data definida. Se não bastar, depois lhe reembolso.
【Z】: ?
Shen Jixing franziu a testa.
Será que esse homem só sabia digitar pontos de interrogação?
【Z】: Entendi.
Zhou Yiliu assumiu uma postura de quem tudo decifrara, digitando com desdém, o celular em uma das mãos, um sorriso frio nos lábios.
【Z】: Então é tão difícil assim achar um imóvel por aí, e só resta a você se encostar diariamente em minha casa.
【Z】: Entendi, fique à vontade.
“Transferência de 10.000 yuan devolvida.”
Havia ali um tom de: “Eu sei exatamente o que você pensa, mas hoje estou de bom humor e não vou desmascará-lo; além disso, essa quantia é insignificante demais para mim...”
Shen Jixing olhou para a conversa, sentindo-se entre o absurdo e a graça.
Nunca foi homem de se explicar.
【S】: Pense o que quiser.
Largou o celular ao acaso, começou a desabotoar a camisa. Os dedos roçaram o colar de prata, cujo pingente era uma estrela de seis pontas, de um prateado escuro.
Pensamento foi puxado por algum fio invisível; ao recobrar-se, pressionou levemente o estômago.
O celular voltou a soar.
【Z】: Eu até queria lhe poupar algum constrangimento. Por que não olha de novo seu apelido no WeChat?
Shen Jixing: “?”
Ambos tinham apelidos simples: um “S”, o outro “Z”.
Em tempos assim, usar letras como apelido não era incomum. Shen Jixing não via problema algum.
【Z】: O seu WeChat antes não era um ponto? Fez de propósito?
Na verdade, não era paranoia de Zhou Yiliu. Estavam há quase quatro anos sem contato, e ainda por cima, romperam de maneira amarga.
Shen Jixing, sem opções, o procurou – e ainda dizia coisas ambíguas:
“Não tenho para onde ir.”
“Você pode me abrigar?”
“Pode trazer um café para mim?”
“Posso ficar em sua casa o tempo que quiser?”
Era, francamente, uma ambiguidade irritante.
O apelido no WeChat era apenas uma prova ínfima.
Shen Jixing silenciou por um instante, mas percebeu que permitir tal insolência seria demais.
【S】: Igual? Olhe com atenção.
【Z】: ?
Zhou Yiliu, pernas longas dobradas, recostava-se à cabeceira, convencido de que eram apenas letras em inglês.
No instante seguinte, chegou a resposta.
【S】: Sou maior que você.
“…”
“……”
No silêncio profundo do apartamento, ecoou uma imprecação furiosa do jovem senhor Zhou, vencido:
“Droga.”
Seria melhor que você, desgraçado, saísse do meu quarto agora.
Zhou Yiliu fitou a tela com frieza, mas acabou engolindo o insulto.
Criança demais.
Deslizou os dedos longos e frios pelo visor, mudou seu apelido para uma série de “ZZZZZZZ”, e só então, satisfeito, largou o celular sobre o travesseiro.
Talvez fosse o tédio de uma vida estagnada. Embrenhado nas brumas dos pensamentos, recordou a primeira vez em que vira Shen Jixing.
“Que espécie de preceptor?”
O jovem de cabelos negros usava o uniforme azul e branco número 24, uma faixa azul prendendo-lhe a franja, o corpo emanando a rebeldia efervescente da juventude; quicava a bola de basquete e soltava um sorriso de escárnio.
“Dispenso, mande voltar de onde veio.”
“Delinquente!”
O homem de meia-idade bateu a mesa com força, o semblante grave: “Com esses resultados, 666, ainda tem coragem de recusar ajuda?”
O mordomo tentou apaziguar: “666 não é tão ruim...”
O homem riu, gélido: “São 6 pontos em Língua, 6 em Matemática, 6 em Inglês.”
O velho mordomo murmurou: “Ah, isso...”
De fato, não era nota que qualquer um tirasse.
Para ser exato, o jovem mestre estava apenas brincando com o destino, entregue a uma rebeldia sem remorsos.
O rapaz de cabelos negros, sob a luz, segurava a bola com desdém, sem um pingo de arrependimento.
O ar de insolência só inflamou ainda mais a ira de Zhou Hengyang: “Com essa atitude, acha que vai sequer passar no vestibular?”
O ambiente ficou suspenso, como se o tempo hesitasse.
O velho mordomo arregalou os olhos, calado.
Zhou Hengyang franziu o cenho, talvez sentindo pesar pelas palavras duras.
De súbito, o baque seco de uma bola quicando no chão ecoou. Ela rolou, saltitante, para longe.
Todos se assustaram.
Zhou Hengyang fulminou-o com o olhar: “Está louco? Quase me matou de susto!”
O olhar do jovem era de sangue, feroz como um leãozinho acuado.
“Tente mencionar minha mãe mais uma vez.”
Zhou Hengyang: “O que disse?”
“Não quero mais ouvir esse nome em sua boca. Mande seu prodígio do mundo de volta ao buraco de onde veio.”
Zhou Yiliu, rosto fechado, caminhou para fora: “Nunca aprenderei pian...”
Estacou, quase esbarrando em alguém.
Uma fragrância fria e delicada envolveu-lhe o olfato, sândalo branco com um fundo adocicado, quase imperceptível.
À sua frente, um jovem vestia camisa branca e calças negras; os traços nítidos como tinta sobre papel de arroz, o olhar deslizando por sobre seu ombro.
“Estão discutindo?”
O sopro leve daquela presença bagunçou-lhe os fios na nuca.
Zhou Yiliu ficou rígido.
O outro, cortês, afastou-se do espaço exíguo, voz suave e distante: “Continuem, volto depois.”
…
Uma cortesia impecável.
Zhou Yiliu o fitou; à luz dourada do entardecer, aquele homem era limpo e translúcido como jade.
Os cílios longos e retos, de um frio delicado.
De repente, o olhar se ergueu, encontrando o seu; no choque dos olhares, era como a chuva miúda que segue um trovão de primavera, fazendo-lhe o coração saltar sem razão.
Zhou Yiliu desviou primeiro, olhando para baixo ao cruzar por ele.
“Você é o estudante da Royal Academy of Music de Viena?”
A voz de Zhou Hengyang soou atrás.
A resistência do filho era irrelevante; Zhou Hengyang só acreditava em si.
“Sim.”
A voz, clara e aveludada: “Shen Jixing, vinte anos.”
Zhou Yiliu não parou, atravessando o jardim exuberante do verão.
Vinte anos?
No rosto rebelde do jovem, um traço de escárnio surgiu.
“Heh, de onde saiu esse impostor?”
——
Na boca, Zhou Yiliu: Heh, de onde saiu esse impostor?
No coração: Droga, encontrei um anjo caído :-D