Capítulo Quatro: Alugando uma Casa
O Jardim das Peônias fora, em tempos idos, o alojamento dos funcionários da Fábrica de Televisores Peônia. Contudo, a má administração fez com que o mercado fosse encolhendo cada vez mais, até que, por fim, a empresa foi incorporada por outro grupo e passou por um processo de reestruturação. O antigo alojamento foi então convertido no atual conjunto residencial, onde a casa de Cheng Ming situava-se, precisamente, no coração do bairro.
A maioria dos edifícios do conjunto data da década de noventa do século passado, compostos basicamente por pequenos prédios de tijolos vermelhos com seis andares. Por tratar-se de uma das primeiras áreas residenciais da região, suas instalações complementares não eram exatamente completas; não havia estacionamento reservado, por exemplo. Assim, Cheng Ming estacionava o carro no terreno vazio diante do segundo andar, e, depois de descerem do veículo, ambos caminharam em direção ao terceiro bloco, não muito distante dali.
— E então, viu só? Não estou exagerando, certo? Nosso bairro tem uma localização excelente: basta seguir duzentos metros ao sul e já se alcança a via principal do terceiro anel, com transporte conveniente para onde quiser ir. Saindo pelo portão sul, encontra-se o grande supermercado Wu Mei, e, ao lado dele, uma fileira de mais de dez restaurantes — culinária de Chengdu, lamian de Lanzhou, pratos típicos do nordeste para quem busca economia, McDonald’s para quem prefere algo cosmopolita, e, se quiser organizar um banquete, temos o Xiangnan Renjia. Muitas vezes, quando chego tarde e não tenho disposição para cozinhar, vou até lá para uma refeição rápida, sai em conta. A trezentos metros a leste está o Banco de Construção, e, logo adiante, o Parque Shuangxiu, onde os idosos do bairro gostam de passear de manhã e à noite. Ao norte, não muito longe, fica o edifício Qishenglou de que lhe falei; caminhando, não leva mais de sete ou oito minutos...
Cheng Ming, na qualidade de anfitrião, mostrava-se de fato empenhado — a fim de alugar seu apartamento, não poupava esforços nem argumentos.
O imóvel disponível para locação ficava no terceiro andar da unidade um do bloco três. Quando chegaram ao terceiro piso, notaram que a porta de segurança do apartamento em frente à escada estava entreaberta, e de lá vinha a voz de uma mulher:
— Cheng Fei, traga uma bacia d’água!
— Mamãe, não foi anteontem que você já limpou as janelas? Por que limpar de novo, ainda mais sendo tão altas? — respondeu um menino, num tom preguiçoso, demonstrando pouca vontade de ajudar.
— Pedi para trazer água, não para limpar! Para de se meter onde não foi chamado! — a mãe o repreendeu, insatisfeita.
— É que me preocupo com a senhora, com medo que se canse...
— Então venha você mesmo limpar, se está com tanto receio!
— Hehe, mamãe, por que não entende de bom humor? Um cavalheiro só usa a palavra, jamais as mãos. Coisas pequenas como limpar janelas não são para mim! — o garoto protestou.
— Ora, menino, está pedindo para levar uma surra, não é?!
— Tá bom, tá bom, já vou pegar a água... Quando não consegue pela conversa, recorre à força. Mamãe, assim não é democrático!
Os passos se aproximaram da porta e, logo, um menino de cerca de dez anos apareceu diante de nós, trazendo uma bacia plástica nas mãos. Não era muito alto e possuía feições que lembravam as de Cheng Ming, embora o rosto fosse notavelmente mais corado e delicado.
— Filho, de novo provocando sua mãe, não é? Em vez de aprender boas maneiras, só aprende a ser insolente. Está merecendo uma palmada! — Cheng Ming ralhou, sorrindo, enquanto conduzia Wang Zhongming para dentro.
— Pai, aí não é justo. É herança! Você mesmo vive dizendo que minha esperteza veio de você. Se eu não presto, a culpa é sua também! — o pequeno se defendia com agilidade verbal, e era preciso admitir que havia razão na teoria da hereditariedade proposta por Cheng Ming.
— Chega de conversa fiada. Não vê que o papai trouxe visita? Cumprimente o tio. — Cheng Ming, assumindo ares paternos, ordenou com semblante sério.
— Olá, tio! — saudou o menino, sem timidez, com voz límpida e clara.
— Ora, olá! Este é seu filho? Que menino educado! — Wang Zhongming sorriu e afagou-lhe de leve a cabeça, dirigindo-se a Cheng Ming.
— Isso porque ainda não o conhece direito. Quando se familiarizar, verá como esse menino é arteiro. Ei, querida, larga um pouco o que está fazendo, temos visita para ver o apartamento! — O elogio, mesmo que fosse apenas por cortesia, deixou Cheng Ming satisfeito, e ele logo gritou para dentro, avisando à esposa.
A esposa de Cheng Fei era uma típica dona de casa: robusta, cabelos curtos, avental à cintura e as mangas arregaçadas até os cotovelos, claramente uma mulher de pulso tanto dentro quanto fora de casa.
— Oh, me perdoe, estou limpando e a casa está meio bagunçada — disse ela, atenciosa, enquanto convidava Wang Zhongming a entrar.
As condições do apartamento eram medianas: eletrodomésticos e móveis antigos, mas, como Cheng Ming já antecipara, tudo estava impecavelmente limpo, com janelas brilhando e praticamente sem vestígio de poeira. Ao abrir a janela, notava-se que o ruído dos carros na rua lá fora mal se fazia ouvir. Wang Zhongming fez um rápido tour: cozinha, banheiro, encanamento, gás, aquecedor de água — tudo em perfeito funcionamento. Não era um homem exigente quanto ao conforto material, e julgou não ser necessário procurar por outra opção.
— Perfeito, gostei muito do apartamento. Faremos conforme combinado — decidiu prontamente Wang Zhongming após a visita.
— Ah, ótimo, ótimo! Sabia que você era um homem prático. Querida, o contrato! — Cheng Ming não esperava que Wang Zhongming decidisse tão depressa, sem sequer barganhar; sentiu-se radiante e logo pediu à esposa que trouxesse o contrato previamente preparado. Ali mesmo, formalizaram a locação.
Após assinarem, Wang Zhongming abriu a carteira e tirou duzentos yuans.
— Senhor Cheng, não estou com muito dinheiro em espécie agora. Fique com esses duzentos como sinal. O senhor mencionou que há uma agência do Banco de Construção nas proximidades; vou até lá sacar o restante, aproveito para passar no supermercado Wu Mei e comprar algumas coisas. À noite, trago o aluguel e o depósito, pode ser?
— Claro, sem problema algum! Já alugamos o apartamento para você, por que não confiaríamos? Aliás, como está sozinho, por que não janta conosco hoje? Assim comemoramos sua chegada e damos as boas-vindas. — Como sua própria casa ficava apenas a um prédio de distância do apartamento alugado, e com tudo acertado pela tarde, Cheng Ming não temia contratempos. Mesmo que a locação não se concretizasse, segundo a lei, o sinal não seria devolvido, então não havia razão para hesitar.
— O que acha? Aceitar um convite para jantar na casa de alguém que mal conhece... será apropriado? — Wang Zhongming vacilou, pois não era dado a grandes confraternizações.
— Ora, que bobagem! É só pôr mais um par de talheres à mesa, não faz diferença. Aliás, é comida caseira, simples mesmo. E digo sem exagero: minha esposa é exímia cozinheira. Então está decidido — às seis e meia, quando a comida estiver pronta, peço ao Cheng Fei para ir buscá-lo. — Cheng Ming, com seu jeito direto, já marcava a hora sem deixar espaço para recusas.
— Isso mesmo, não precisa cerimônia. Hoje à noite, o melhor amigo do meu marido, Qian Erpang, também virá. Já comprei carne e todos os ingredientes, não será incômodo algum — reforçou a esposa.
Diante de tanta hospitalidade, Wang Zhongming não pôde recusar o convite.
Cheng Ming ainda precisava sair para trabalhar; ajudou Wang Zhongming a levar a bagagem do porta-malas até o apartamento e despediu-se. Sua esposa arrumou rapidamente o cômodo e, levando o filho, voltou para casa a fim de preparar o jantar. Wang Zhongming, após acompanhá-los até a porta, deitou-se um pouco no sofá para descansar. Quando acordou, já era quase três horas da tarde. Lavou o rosto no banheiro, trocou de roupa, abriu a porta e desceu, deixando o conjunto residencial para, conforme as indicações de Cheng Ming, seguir a leste.