Capítulo Três: A Sede pela Imortalidade
O velho Daoista Huang e seu jovem discípulo avançaram pelo caminho de terra e adentraram o vilarejo. Já era tarde, a lama do pós-chuva tornava o trajeto difícil, e poucas almas se aventuravam pelas ruas. De longe, Huang Lao Dao avistou um rapaz de semblante abatido e, num instante, atraiu-o para perto de si. O jovem soltou um grito de susto, recobrando-se do espanto de ser transportado pelo ar; diante dele, o ancião de cabelos brancos e fisionomia juvenil olhava-o com benevolência. O rapaz, incrédulo, lançou um olhar para o caminho atrás de si e, de repente, caiu de joelhos: “Um… um imortal!” “Levanta-te. Este é meu mestre, o Daoista das Montanhas Áridas. Podes chamá-lo de Mestre Huang.” O discípulo ergueu o pescoço ao falar. “Sim, sim, Mestre Huang!” Vendo o jovem tão atordoado, Huang Lao Dao sorriu — era evidente que nenhum outro cultivador havia passado por ali. “O vilarejo de Daping já recebeu outros mestres imortais?” indagou o discípulo. “N-não, nunca,” respondeu o rapaz, quase sem voz. “Chame todos do vilarejo para cá…” Huang Lao Dao interrompeu: “Qingmu, não há pressa. O dia já declina, vá por ora; amanhã, eu próprio os reunirei aqui.” Ao dizer isso, Huang Lao Dao agitou levemente a manga do traje, e ambos sumiram diante do jovem. O rapaz era o ajudante da taberna, e ficou a mirar, incrédulo, a rua vazia. Este ir e vir, tão prodigioso, só podia ser obra de um verdadeiro imortal. Será… será que o velho Ji estava certo sobre a sorte virar? O jovem apressou-se a correr para a taberna: “Patrão, vi um imortal…” … A casa do velho Ji era um pequeno pátio, de entrada única, o portão feito com cercas de vime e entrelaçado de trepadeiras. Três quartos: um para o velho Ji, outro para o erudito, outro para Cheng Zhaozhao. Ao sul, uma sala de estudo iluminada e limpa, repleta de livros; quando o erudito não estava, Cheng Zhaozhao gostava de folhear ali os volumes. Do lado de fora do quarto de Ji, havia um pequeno compartimento cheio de objetos curiosos, colecionados em sua juventude: sacos de pano puídos, caixas de madeira, sucata de cobre, ferro enferrujado e, sobretudo, seus instrumentos de adivinhação. Além disso, apenas uma cozinha modesta e uma sala de ferramentas. No centro do pátio, erguia-se um pinheiro centenário, cujos galhos robustos preenchiam por completo o espaço aéreo. Curiosamente, nos ramos pendiam inúmeras moedas de cobre amarradas com cordões vermelhos; quando o vento soprava, as moedas tilintavam com um som cristalino.
Era esta a ‘Árvore do Dinheiro’ favorita de Ji. Ao chegar à sala de estudo, Cheng Zhaozhao abriu um exemplar dos “Registros de Tianchu”, manuscrito, cuja caligrafia era claramente de Ji. A caligrafia fora o que primeiro lhe despertara interesse; quase todos os livros pertenciam ao erudito, e jamais vira Ji lendo. Tratava-se de um diário de viagem, registrando os encontros e visões de Ji em Tianchu, na juventude — especialmente as histórias de imortais, que fascinavam Zhaozhao. Os habitantes de Daping apenas sabiam que as montanhas Cangwu eram vastas e inexploráveis; a selva profunda era intransponível, e eles se contentavam com o que a terra lhes dava. Cheng Zhaozhao sabia mais: que as montanhas eram apenas um obstáculo entre Dongling e o Sul; inexploráveis para mortais, mas não para cultivadores. No início do diário, Ji anotara que o continente Tianchu era dividido entre o mundo dos mortais e o dos cultivadores; mortais precisavam de raízes espirituais e de encontrar um guia para ascender como cultivadores. Estes possuíam habilidades sobrenaturais, capazes de voar e mover montanhas. Ji, na juventude, considerava-se um prodígio e buscava com ardor o caminho da ascensão, sempre à procura de oportunidades. Mas o destino lhe pregou peças: os imortais que encontrou ou lhe roubaram, ou tentaram assassiná-lo. Perdeu família e fortuna, e já sem esperança, cogitou pôr fim à vida — mas, no extremo desespero, encontrou um cultivador. Piedoso, esse cultivador avaliou sua raiz espiritual, mas Ji não possuía o destino da ascensão. Mais tarde, aprendeu o método de adivinhação, tornando-se um mestre do destino. Ao fechar o livro, Cheng Zhaozhao suspirou. Era menos um diário, mais uma autobiografia de Ji. Ele buscou os imortais a vida toda, mas jamais realizou seu desejo. “Cocoró!” Qianli batia as asas junto à porta; Cheng Zhaozhao correu para abraçá-lo. “Hoje não vamos à montanha; há coisas mais importantes a fazer.” … Em dias passados, ao subir o aroma do fogão no vilarejo, era certo ouvir Ji voltando, perguntando a Cheng Zhaozhao o que haveria para o jantar. Hoje, porém, Cheng Zhaozhao preparou uma mesa farta de iguarias silvestres e, ainda assim, Ji não apareceu. Levantava-se, sentava-se, levantava-se de novo. O tilintar das moedas da Árvore do Dinheiro acalmava a inquietação de seu coração. Para os de fora, Ji era um charlatão; mas ela sabia que, no que tange à adivinhação, ele nunca errava. Por isso… “Velho, pare de se esconder aí na porta. Sei que já voltou.” Cheng Zhaozhao chamou em direção ao portão. Qianli saltou animado. Não demorou e Ji respondeu.
“Ô, sua codorna, vou entrar, vou entrar, está bem?” Ji esquivou-se de Qianli e entrou na casa; ao ver a comida, seus olhos brilharam e apressou-se a sentar. “Que dia especial é este? Minha neta preparou tantos pratos que gosto! Peixinhos agridoce, vagens salteadas, haha, deixem-me provar!” Pegou os palitos e já ia comer. Nesse instante, Cheng Zhaozhao colocou o tubo de palitos diante dele. Ji desviou: “Hmm, hmm, este sabor está ótimo, muito bom…” E atacou outro prato. Cheng Zhaozhao retirou um palito e o colocou à sua frente: “Velho, este é o último palito que tirei.” Ji parou, fingiu nada ouvir e continuou a comer. Cheng Zhaozhao inspirou fundo: “Vovô Ji, vi seu diário de viagem.” Não se sabe se foi pelo “vovô Ji” ou pela frase seguinte, mas Ji subitamente se petrificou, o rosto ruborizou e começou a tossir violentamente. Cheng Zhaozhao correu para lhe bater nas costas: “Já te disse mil vezes: coma devagar, mas não me escuta.” “Cof cof…” “Melhorou?” “Cof cof, não, não… Não vai melhorar tão cedo… Netinha, se tem algo a dizer… cof cof, diga depois.” Ji levantou-se e caminhou para fora. “Mais cedo ou mais tarde, tem de dizer.” “Então diga mais tarde…” “Mas eu quero ir atrás do meu pai!” Ji parou de costas para Cheng Zhaozhao; após um instante, girou repentinamente, largou os palitos sobre a mesa: “Sua pestinha, não pode deixar o velho comer em paz?” “Desculpe.” “Não diga desculpe! Se desculpas resolvessem, pra que serviria o chefe do vilarejo?”